Textos e imagens do projeto CROMO SAPIENS, realizado entre 2009 e 2012. São instalações, ações urbanas e um álbum de figurinhas realizados a partir de uma entrevista com 30 moradores de rua da cidade do Rio de Janeiro.
http://www.slideshare.net/pileggisa/cromo-sapiens
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Apartamento padrão
Projeto apresentado para ser realizado na parede da galeria A Gentil Carioca, enviado em 2010 e reapresentado para o concurso Abre-alas, de 2011. Aguardando propostas.
Paisagem retomada
Reflorestar área devastada onde certa espécie de animal (ou vegetal) foi extinta. O desenho do reflorestamento, visto do alto, deve ter o contorno do animal. Exemplares desse animal deverá habitar o lugar, com condições de se reproduzir.
A dimensão do trabaho deve ser grande o suficiente para ser visto do alto, por quem passa de avião.
Busco parcerias
Esse é um projeto de grande porte que deve envolver vários profissionais. Aceito terra, dinheiro ou sócios para o empreendimento. Entre em contato. Grato
Rubens Pileggi
A dimensão do trabaho deve ser grande o suficiente para ser visto do alto, por quem passa de avião.
Busco parcerias
Esse é um projeto de grande porte que deve envolver vários profissionais. Aceito terra, dinheiro ou sócios para o empreendimento. Entre em contato. Grato
Rubens Pileggi
sábado, 18 de fevereiro de 2012
NOTÍCIAS FABRICADAS - crítica
Por uma arte política:
os mundos visíveis de Rubens Pileggi
Manoel Silvestre
Friques
Dentre
o conjunto de procedimentos poéticos utilizado por Rubens Pileggi,
aqueles que talvez sejam mais pungentes dizem respeito ao modo como
o artista lida com a visibilidade. Suas obras propõem, com uma certa
freqüência, deslocamentos do visível, na medida em que trazem à
baila elementos ignorados pela paisagem urbana – mas que pertencem,
irrevogavelmente, a esta – ao mesmo tempo em que se dissolvem em meio
ao caos das grandes cidades. Questionando, por exemplo, a “lógica
do monumento” – no interior da qual a escultura representa, em caráter
grandioso, permanente e comemorativo, um feito histórico – Pileggi
trata de criar estátuas efêmeras em miniatura, instalando-os em lugares
de grande circulação. Em poucos horas, tais objetos somem sem deixar
rastros, em contraponto direto ao boom de memória vivenciado
nos dias atuais, seja por meio do desenvolvimento tecnológico, seja
por meio de um revival da idéia de monumento como memorial.
Aqui, não resta dúvidas quanto à proposta desmaterializante da obra:
o trabalho de Pileggi resiste à institucionalização artística ao
se diluir nas ruas das metrópoles, afirmando-se como uma antiescultura,
antiobjeto.
Se,
em Monumento Mínimo Precário (1998), o visível – a obra
de arte, a escultura mini-monumental – é devolvida à sua condição
de invisibilidade, em Notícias Fabricadas (2011), observa-se
movimento inverso. Atuando criticamente a partir de reportagens jornalísticas
que lidam com o “problema” dos moradores de rua, Pileggi exibe não
apenas este grupo de indivíduos, mas também os recursos utilizados
pela mídia para torná-los, por meio da visibilidade da notícia, mais
invisíveis. A matéria-mote para a obra expunha as medidas utilizadas
pela prefeitura do Rio de Janeiro para impedir a ação dos mendigos,
colocando pedras embaixo dos viadutos, impossibilitando-os de dormir
nestes locais. Relatava também a preocupação dos moradores “legítimos”
dos bairros, por meio da contratação de detetives responsáveis por
desvendar a origem e o perfil dos “invasores”. Ora, como não saber
a origem dos moradores de rua?
A
leitura do artista para a notícia produziu então o trabalho que agora
lemos. Às matérias iniciais, são acrescentadas duas páginas de jornal
contendo reportagens produzidas pelo próprio Pileggi, três travesseiros
sonoros e um relógio Romelex. Por meio das notícias que produz,
o artista cria uma fenda naquilo que Barthes denomina de logosfera
– uma espécie de camada de forração formada por tudo que lemos
e/ou ouvimos. Neste caso, ela se refere ao discurso oficial, por meio
do qual a versão jornalística se converte em retrato legítimo da
realidade. A criação de mais reportagens sobre o tema, acrescentando-lhe
informações, não é realizada de forma incólume, pelo contrário.
As notícias de Rubens levam ao extremo as posições jornalísticas
– aparentemente imparciais – a ponto de revelar-lhes seu absurdo
latente. O acréscimo de matérias impõe-se como um artifício por
meio do qual a reportagem do artista revela o caráter fictício –
e, por que não dizer?, mentiroso – de algo que se pretende verdadeiro.
A adição, portanto, abala o discurso jornalístico, interrompendo
o continuum de palavras que trata de esconder, ou ao menos velar,
suas verdadeiras intenções e posicionamentos. A perspectiva crítica
deste trabalho não surge por meio da denúncia ou da supressão, mas
da intensificação – através do acréscimo – de um discurso. É
neste sentido que o trabalho de Pileggi pode ser relacionado à poética
de Bertold Brecht.
Pois,
assim como a do encenador alemão, a obra aqui comentada trata de devolver
a verdade histórica ao escrito. Neste caso, ela está estampada
no título: notícias fabricadas. Enquanto verdade produzida,
o sentido deste discurso jornalístico é único: ele atua de modo monopolizante,
parcial e redutor. Isto não deve ser desconsiderado, nem neste, nem
em outros casos onde a mídia, com a sua capacidade (e o seu poder)
de controlar e manipular a informação, inventa verdades mentirosas
– neste sentido, o tratamento dado aos mendigos resulta de uma postura
padrão de um tipo de jornalista desvinculado já há algum tempo de
qualquer pensamento ético, postura essa que pausteriza os insurgentes
e os relega à invisibilidade (mais recentemente, pode-se mencionar
o caso de Pinheirinho, em São Paulo, noticiado de modo torpe pelos
veículos de comunicação).
A
verdade histórica é inserida então no espaço atemporal e asséptico
da galeria de arte. Ora, nesta operação, onde o histórico se choca
com o atemporal, põe-se em jogo não apenas os binômios verdade/mentira
e história/natureza, mas também outro: fora/dentro. Ao dar destaque,
por meio de sua obra, a assuntos rotineiramente relegados ao esquecimento
– não apenas pelos jornais, mas por todo e qualquer transeunte
de uma grande cidade – Pileggi impregna o interior da galeria
de seu exterior, acrescentando (uma vez mais) a um espaço subtraído
(afinal, este lugar isola a obra de tudo aquilo que pode interferir
a sua apreensão) todo o seu entorno. O cubo branco é, com isso, contaminado
– os mendigos não estão apenas soltos nas ruas, mas presentes também
até nos espaços ideais das galerias de arte. Os três travesseiros
atuam, com isso, de modo diametralmente inverso a propostas relacionais,
como os Objetos transitórios para uso humano (2008), de Marina
Abramovic – cuja genealogia, indubitavelmente, deve remontar à produção
de Ligia Clark – na qual o espectador é convidado a vivenciar “momentos
de paz” desencadeados por relações ritualísticas com materiais
como cristais, cobre e ferro. No caso de Pileggi, elimina-se a possibilidade
de uma vivência desta natureza, pois encostar a cabeça no travesseiro
traz consigo a densidade sonora do exterior. O espectador, então, é
alçado à condição de mendigo, vivenciando, não uma experiência
íntima e atemporal, mas uma situação histórica e fabricada pela
notícia do artista.
O
choque temporal e a redistribuição espacial observados na obra de
Rubens Pileggi conduzem à crença de que suas produções artísticas
são políticas. Tal afirmação pressupõe uma noção de arte política
que, antes de representar conflitos sociais ou denunciá-los, configura-se
como um sensorium no qual a experiência proposta trata de produzir
um dissenso, uma fissura na logosfera instituída. Por meio de abalos,
acréscimos e deslocamentos, Pileggi questiona justamente os regimes
instituídos de visibilidade e de legibilidade, travando um diálogo
com Jacques Rancière, quando este diz que a arte é política quando
“os espaços e os tempos que ela recorta e as formas de ocupação
desses tempos e espaços que ela determina interferem com o recorte
dos espaços e dos tempos, dos sujeitos e dos objetos, do privado e
do público, das competências e das incompetências, que define (ou
definem?) uma comunidade”. Sua obra é política na medida em que
redistribui relações e embaralha polaridades – ela não poderia
ser outra, portanto, a não ser um Romelex.
NOTÍCIAS FABRICADAS
travesseiros sonorizados
notícias de jornal
relógio ROMELEX: uma outra dimensão do tempo
Vista geral da instalação
instalação NOTÍCIAS FABRICADAS
exposição (IN)possíveis - 27 de janeiro a 01 de abril de 2012 - Parque Lage
curso Aprofundamento/2011
orientadores: Anna Bella geiger, Fernando Cochiarale e João Modé
As 3 primeiras fotos são do fotógrafo do Parque Lage. As outras são minhas.
notícias de jornal
Vista geral da instalação
instalação NOTÍCIAS FABRICADAS
exposição (IN)possíveis - 27 de janeiro a 01 de abril de 2012 - Parque Lage
curso Aprofundamento/2011
orientadores: Anna Bella geiger, Fernando Cochiarale e João Modé
As 3 primeiras fotos são do fotógrafo do Parque Lage. As outras são minhas.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
L'autre Brasil
CONTAMINADO
(contaminé)
A
partir de photographies, d’objets et d’une instalation,
CONTAMINADO propose quatre travaux distincts qui ont en commun une
stratégie de visibilité que présente la relation entre la culture
des personnes différentes dans un monde globalisé. Dans le cadre de
cet évenement, l'accent est mis sur les fruits de la contamination
entre les Indiens Brèsiliens et les colones blancs dans les régions
tropicales, qui s'étend sur plus de 500 ans. S'il est vrai que les
Indiens étaient infectées par des maladies, qu’on avait envahi
leurs terres, qu’ils se trouvaient interdits de pratiquer leurs
coutumes, il est également vrai que, poussés par la nécessité de
survivre, ils ont été contraints de s'adapter, souvent avec des
résultats imprévisibles. De la tentative de les asservir, du début
de la colonisation jusqu'au capitalisme actuel, de plus en plus
l'image du «sauvage primitif» s’est présentée comme une
marchandise. Une marchandise qui paraît naïve, compte tenu de son
fardeau de l'exotisme, mais qui n'a jamais cessé d'être un vecteur
de contamination culturelle, puisque l'idée même de la nature, est
aussi une invention de l'homme blanc.
CONTAMINADO - l'autre Brasil
u-TUPY-olândia
objetos variados
u-TUPY-olândia (detalhe)
Cartão do Manneken Piss furado, em u_TUPY_olândia
u_TUPY_olândia (detalhe)
Vida em gotas
u_TUPY_olândia (detalhe)
Ipanema Beach
Santos Protetores
Instalação para vitrine com 3 banners
Vitrine (visão interna)
u_TUPY_olândia (detalhe)
u_TUPY_olândia (detalhe)
u_TUPY_olândia (detalhe)
u_TUPY_olândia (detalhe)
u_TUPY_olândia (detalhe)
u_TUPY_olândia (detalhe)
u_TUPY_olândia (detalhe)
Vitrine
u_TUPY_olândia (detalhe)
Visitante com Kit_DuArte
Vitrine (visão interior)
Detalhe do buraco no banner da Vitrine
objetos variados
u-TUPY-olândia (detalhe)
Cartão do Manneken Piss furado, em u_TUPY_olândia
Terra para Todos
150 saquinhos de terra distribuídos gratuitamente
Visão do mezanino da galeria Museu Imaginário, Pça Jeu de Balle, 27, Brusselsu_TUPY_olândia (detalhe)
Vida em gotas
u_TUPY_olândia (detalhe)
Ipanema Beach
Santos Protetores
Instalação para vitrine com 3 banners
Vitrine (visão interna)
u_TUPY_olândia (detalhe)
u_TUPY_olândia (detalhe)
u_TUPY_olândia (detalhe)
u_TUPY_olândia (detalhe)
u_TUPY_olândia (detalhe)
Contaminado
Série de fotografias 30x40cm cadau_TUPY_olândia (detalhe)
u_TUPY_olândia (detalhe)
Vitrine
u_TUPY_olândia (detalhe)
Visitante com Kit_DuArte
Vitrine (visão interior)
Detalhe do buraco no banner da Vitrine
CONTAMINADO
A exposição CONTAMINADO, de Rubens Pileggi
Sá, faz parte da mostra L'autre Brésil, que vem reunindo vários
artistas brasileiros em residência na Bélgica, desde outubro de
2011. Sua realização é fruto de uma parceria do Musee Imaginaire
et Identiques com o Estúdio DEZENOVE, dirigido por Júlio Castro.
Constituído de 04 trabalhos distintos, todos
eles tem em comum uma estratégia de visibilidade que se dá na
relação entre cultura de povos diferentes em um mundo globalizado.
No caso da presente mostra, o foco recai sobre os frutos das
contaminações entre índios e brancos nos Trópicos, que acontecem
há mais de 500 anos. Se é certo que os índios foram contaminados
com doenças, que tiveram suas terras invadidas, impedidos de
praticar seus costumes, não é menos certo que, movidos pela
necessidade de sobrevivência, foram obrigados a se adaptar, muitas
vezes, com resultados imprevisíveis. Da tentativa de escravizá-los,
no início da colonização, até chegar ao capitalismo atual, cada
vez mais a imagem do 'primitivo selvagem' passou a existir como
mercadoria. Uma mercadoria aparentemente ingênua e facilmente
rotulável, dada sua carga de exotismo para o homem branco, mas que
nunca deixou de ser um vetor de contaminação cultural, uma vez que
a própria ideia de natureza da qual esses povos são portadores,
também é uma invenção do homem branco.
O que se pode dizer, assim, é que uma
'inversão antropológica' está em curso na relação dos dominados
com os dominadores, fazendo com que as imagens só possam se integrar
umas às outras por oposição, conflito e tensão. No caso da
presente exposição, já na vitrine da galeria nos deparamos com uma
dessas situações, onde o retrato de uma índia nua, sem rosto, é
ladeado por outras duas imagens de santas católicas armadas até os
dentes. Essa índia, de rosto vazado, pode ser eu ou você, mas será
sempre uma farsa, na medida em que, de fato, nunca podemos ser 'o
outro'. Ao mesmo tempo, o que fazem aquelas santas que a ladeiam,
estão lá para protegê-la ou para oprimi-la? Certamente suas armas
fazem referência às armas dos homens brancos e não as dos
'selvagens'.
Contaminação também é o tema das 14 fotos
expostas na galeria. Trata-se de apropriações de imagens de vários
painéis luminosos que estavam expostos na frente do Museu do Índio,
no Rio de Janeiro, durante uma visita do artista ao local. As fotos
captam o reflexo da paisagem urbana diante dos luminosos, parecendo
perguntar ao espectador: quem contamina quem?
Já a mesa do CAMELÔ – que é um vendedor
informal e ambulante muito comum no Brasil – é uma instalação
que mostra vários objetos onde o jogo de aliterações entre nomes,
coisas e função dos objetos é levado ao extremo. A maioria deles
parte da realidade brasileira, particularmente da cidade do Rio de
Janeiro, para questionar sua beleza, sua monumentalidade, sua
'brasilidade' e a insistente publicidade carioca disposta a vender a
imagem de um país exótico e hospitaleiro ao mundo.
Por fim, TERRA PARA TODOS, parece harmonizar,
através da generosidade, as contradições das contaminações. São
saquinhos de terra que o espectador pode levar para casa, grátis,
como souvenir da exposição. Mas, também, remetem à idéia de que
a Terra – a Pacha Mama
– deve ser dividida entre todos os seus filhos, e que não pode
permanecer somente como direito de poucos privilegiados.
Desse modo, CONTAMINADOS não vem para mostrar
que a pureza é o nosso mito idealista de representação do mundo,
nem para testar a unanimidade das escolhas éticas e estéticas, mas
para provocar questões, debates e reflexões que se prestem a
revelar nossa contemporaneidade.
Hilário Mertz/ dez 2011
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