domingo, 26 de junho de 2016

O BLOCO DO DESCARTES

Contrapor o filósofo René Descartes ao portal da Praça da Apoteose do Samba, na manhã da quarta-feira de cinzas do dia 18 de fevereiro do ano de 2015, depois que a festa se acabou, pode ser um indício de que loucura e lucidez, alegoria e metalinguagem, são apenas modos de operar a linguagem para que, essa também se torne parte de um jogo de duplo sentido, aliterando, sem mexer, a palavra de origem francesa (?) do sobrenome do filósofo no exato lugar onde os foliões das escolas de samba do Rio de Janeiro se livram de suas fantasias cheias de lantejoulas, panos brilhantes, traquitanas das mais variadas, fazendo com o que era luxo – ou uma alegoria cara do luxo – se transformar, como em um passe de mágica, em lixo. Mas esse lixo, disputado com os garis da Comlurb, empresa que coleta o lixo na cidade, pode ter um destino surpreendente, ou melhor, podem surpreender, tornando não só o que queremos que ele se torne, mas ser o que ele quiser ser, inclusive se tornar luxuoso, novamente. Desse modo, o filósofo Descartes, o pai do racionalismo, se transforma no Bloco de (pós) carnaval DESCARTES, que além da referência direta ao descarte que é feito na área de dispersão do sambódromo, ainda carrega dentro de si a palavra ARTE. Assim também é o enredo dessa trama, uma vez que se trata de um sonho que se mistura à realidade, mas, ao mesmo tempo, de um delírio que se confunde com uma fantasia. E, aqui, novamente, a palavra em dupla acepção, porque é uma fantasia objeto e uma fantasia ligada ao desejo de uma pessoa. O que se passa? Uma foliã, exausta de tanto brincar o carnaval, está voltando para casa e, ao passar pela área de dispersão da passarela do samba – que está voltando a ser uma rua da cidade, como qualquer outra – ouve alguém lhe chamar e procura encontrar de onde vem o som. Um pouco incrédula, percebe que o som vem de uma máscara de carnaval imitando uma máscara africana. Chega mais perto e a fantasia de carnaval lhe convence que, se ela vestir as fantasias espalhadas pelo chão, ela irá se tornar muito poderosa. Ela aceita a proposta da máscara, veste as roupas e logo começa a dançar, feliz com os poderes que subitamente conquistou. Depois de algum tempo, a máscara abandona a mulher e se encontra pendurada em um poste. Abaixo do poste, a mulher, primeiro recostada e, depois, dormindo. Sonha com superpoderes que não poderá usufruir. Ou é sonhada pela fantasia que a transforma em uma rainha, durante um breve e curto espaço de tempo, onde loucura, desejo, paixão, vida ordinária, vagabundos, mendigos e garis se misturam à luz de uma manhã que ainda não é dos carros, apenas porque ainda há sonhos a ser retirados das ruas.



NA MANHÃ DE CINZAS ELA VAI TRABALHAR


AO PASSAR PELO SAMBÓDROMO, ESCUTA UMA VOZ A LHE CHAMAR





 IMPOSSÍVEL! A MÁSCARA FALA!

NÃO SÓ FALA COMO SEDUZ NOSSA PERSONAGEM COM FANTASIAS DE LIBERDADE E FELICIDADE



PARA ISSO, PORÉM, É PRECISO VESTIR A FANTASIA















 NÃO SÓ VESTIR A FANTASIA, MAS CELEBRAR A ALEGRIA
E DANÇAR COMO SE O CARNAVAL NÃO ACABASSE NUNCA

O CORPO UMA HORA CANSA


 É PRECISO DORMIR
É PRECISO SONHAR!



segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

CARECA DE SABER

                                         Registro: Newton Goto

Julho de 2006

PERFORMANCE REALIZADA EM ANTONINA, Paraná,durante o 16º FESTIVAL DE INVERNO promovido pela Universidade Federal do Paraná, dentro do projeto REDES / FUNARTE e produzido por EPA! (Expansão Pública do Artista), capitaneada pelo artista Newton Goto.




CONTEXTO:
Discutir questões relacionadas à ética e a estética, em uma barbearia, a partir do quadro eleitoral nacional e a polarização inventada pela mídia, entre dois candidatos à presidência da República e suas propostas (ou falta delas) para governar o país.

AÇÃO E REFLEXÃO
“Careca de saber”: relativo à sabedoria e à perda de cabelo enquanto fenômeno físico por ação do tempo (calvície) ou corte de cabelo.

A PERFORMANCE
Realizada em uma barbearia local, no centro da cidade, onde os homens se reúnem para falar mal da vida alheia, política e futebol (não necessariamente nesta ordem). Ou, a barbearia é o rádio-peão da cidade interiorana.


Com duas placas à mão, uma escrita LULISMO e a outra ALQUIMISMO, sentei na cadeira do barbeiro e pedi para cortar cabelo e barba, afim de mudar o visual radicalmente.
A questão colocada na situação era sobre a mudança que se gostaria de fazer, saindo de uma situação política ligada ao Lulismo – em referência ao presidente Lula – para se chegar ao Alquimismo. Mas não ao Alckimismo do candidato do PSDB à presidência, mas daquele referente à Alquimia, na idade média, que tinha por busca a pedra filosofal, de transformar o chumbo em ouro (não pelo vil metal em si, mas pelo que ele representa, seu referencial simbólico de elevação).



A partir de uma consideração genérica, de que os militantes de esquerda são barbudos e cabeludos (desde descuidados até almofadinhas) e os integrantes da direita política partidária são carecas e barbeados (repare!), começei uma conversa na barbearia envolvendo várias pessoas do lugar, para falar sobre arte e política. Questionando, ao mesmo tempo, a ética e a estética enquanto conduta de ação individual e coletiva. E colocando temas como reforma agrária, legalização das drogas e reestatização dos setores estratégicos, levando as pessoas a refletirem e opinarem sobre essas questões.


Ao final do trabalho, o barbeiro também quis participar da performance além de seu trabalho cotidiano, tirando uma foto com a máquina dele, que, ao invés de foto, saia um pênis quando apertado o clique. O que tornou ainda mais jocosa a cena toda, porque falávamos de esquerda e direita. E toda agremiação populista possui sempre uma ala denominada de “força jovem” ou “juventude socialista” ou “juventude fascista”, que são jovens com idéias velhas sustentando o poder do phalo grande e duro como símbolo da sociedade machista e patriarcal.
Como uma boa performance de barbearia, restava-nos apenas rir. E foi o que fizemos. Afinal de contas, uma das estratégias para se começar um assunto sério é a descontração no início da conversa e o aprofundamento do debate, em seguida.
CARECA DE SABER, então, tem a ver com essa situação de jogos polares políticos e a transcendência dessa situação – a alquimia – através da sabedoria.